2007-03-29

alegoria revisitada

Nessa noite etílica perguntei: Cenário:

- Imagina-te nascido numa sala escura, crescido nessa sala escura, e que de alguma forma o conhecimento humano, em forma enciclopédica, te fora transmitido e implantado na cabeça de forma transparente (parati). Serias alimentado por um processo químico avançado que enriquecesse a atmosfera que respiras.

Pergunta:
Se tudo isso te fosse transmitido, pessoas, carros, casas, canteiros (como diz o poeta), mas nunca tivesses tido contacto com outros seresvivos acreditarias, ainda assim, que estás vivo?

6 Sim?:

Blogger kiko said...

é como aquele livro de areia cuja folha nunca se repete e com conteúdos nunca transmitidos... realidade e imoralidade convivem para nos fazer acreditar nessa intransigente vontade de crer... C'um catano que isto é que é falar sem gaguejar!

3/30/2007 01:46:00 PM  
Blogger Alexandre said...

ainda tens blog, ò resistente das ilhas? ;)

3/31/2007 04:23:00 AM  
Blogger Hugo Brito said...

É verdade, gosto de documentos intermináveis ;)

3/31/2007 10:03:00 PM  
Anonymous Anónimo said...

Qualquer dia não precisamos de nascer. Nem de crescer, nem de aprender, nem de amar e sofrer, já está tudo pronto num implante intra-uterino...

Então não haverá mais cantos de amor, como "fica nos meus olhos, lágrima maldita", nem as infindáveis espirais da consciência, de labirinto em labirinto, de minotauro em minotauro, porque restará sempre apenas tempo.

Quando, pela informação total e instantânea, o tempo for poupado à sua expressão máxima, redondamente infinito em todas as infinitas direcções que se curvam sempre iguais para dentro de si mesmas, o espaço será obsoleto. logo, viver também.

Portanto, mulher nenhuma poderá cavalgar lado a lado com um centauro.

Parece-me mau negócio.

beijo

4/28/2007 09:25:00 PM  
Blogger Hugo Brito said...

Talvez seja isso caro anónimo do beijo, um espaço obsoleto em que tudo se torna obsoleto.

José Ortega y Gasset, escrevia em 1925, na sua 'desumanização da arte' que é "muito difícil que hoje se possa inventar uma aventura capaz de interessar à nossa sensibilidade superior".

E é verdade, os russos já inventaram tudo, suicidas por felicidade, assassinos por benevolência; pessoas que se adoram ao ponto de se separarem para sempre - portanto, o romance, a aprendizagem, o viver, como lhe chamas, é realmente obsoleto e, pior, formal.

Aproveita bem o teu argumento infinitesimal que é aquilo a que tens direito, enquanto habitas este espaço realmente redondo.

Não existe artifício verbal que salve alguém que perdeu o seu argumento, não é possível alugar motivos intelectuais, mesmo que pareça... as noites de minucioso terror aparecem, mais tarde, quando o espelho já não tem mais por onde reflectir, seja à mulher que guarda centauros ou ao centauro.

Fica só um quarto com um só ser vivo. O tal dos canteiros que não sabe muito bem o que se passou.

um beijo também. espero poder voltar a conversar contigo, por aí.

4/30/2007 05:37:00 PM  
Anonymous Anónimo said...

hmmm... um pequeno reparo, enquanto não me decido a rebater com a morte da verdade universal que o tédio dos que publicam tenha o poder de decidir tudo como obsoleto, nem a aprofundar a estória do escravo que roubou um bilhete de lotaria, carmesim, como a língua:

Centauros, não são coisa que se guarde (p. ex. nos recônditos dum labirinto). São coisa que se venha a ser. Só assim se pode cavalgar lado a lado com eles.

Outro. E também espero.

5/02/2007 12:36:00 AM  

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